Brinquedos de pano doados por mulheres de Paulínia alegram crianças e ajudam voluntárias

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A confecção de uma boneca ou bichinho de pano vai além de tecido, linha, enchimento e tinta. É a porção de carinho envolvido na produção que garante ao brinquedo o dom de arrancar sorrisos, de quem ganha e de quem o faz. Há seis anos, mulheres de diferentes idades e por diferentes motivos se reúnem em Paulínia, e juntas fabricam e compartilham emoções. É são essas bonecas que unem, mesmo longe uma da outra, Daiane, de 7 anos, e Alice Pezzutti, de 54 anos.

Internada na ala pediátrica do Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp, Daiane, de 7 anos, vibrou ao ganhar uma boneca. O semblante abatido pelas horas de leito e a medicação onipresente, desaparecem com o raiar do sorriso. “Ela tem o cabelo igual ao meu”, diz.

Uma prova que esse tipo de doação possui “mão-dupla” ocorre com Alice Pezzutti, de 54 anos, uma das voluntárias do projeto “Joelhos de Pano”. Ela chegou no grupo há três anos, quando ainda lidava com o luto. Em 2011, no intervalo de sete meses, perdeu o marido de um ataque no coração e depois o único filho, de 25 anos, em um acidente.

“Aqui vi que o que estamos fazendo vai levar alegria às pessoas. E por mais triste que você esteja, isso te incentiva. Me vi como exemplo. Fazer o trabalho voluntário trouxe um sossego para o coração, serviu como superação”, conta.

Entrega de alegria
O grupo visitou nesta segunda o HC da Unicamp e distribuiu 50 brinquedos de pano, mudando a rotina de pais e filhos na ala pediátrica. Em tratamento de uma infecção, João, de 10 anos, adorou o tubarão. Pulou da cama e foi brincar com a novidade.

“Fomo recebidos superbem. A espontaneidade da criança é encantadora. Apenas um pequeno presente e já se alegram”, festeja Elisandra Bueno, de 37 anos, uma das criadoras do projeto.

‘Amamos a segunda-feira’
Para quem visita a confecção do grupo, que faz reuniões semanais em Paulínia, descobre logo o lema das “meninas” do Joelhos de Pano. “Nós amamos a segunda-feira. As pessoas odeia, mas nós amamos”, avisa Elisandra.
A frase é quase que marca registrada na conversa com as voluntárias, que se revezam em diferentes estações de trabalho, do corte e costura ao enchimento, passando pela pintura e finalização. “Fico feliz aqui. As segundas são felizes, tenho para onde ir”, destaca Alice.

“Com o tempo virou um grupo de arte terapia, de recuperação conjunta. Além do retorno das crianças que recebem os brinquedos, nos ajudamos. Se tem alguém passando uma dificuldade, compartilhamos isso, no grupo e fora daqui”, avisa Elisandra.

De Paulínia para o mundo
Além de entregas como a realizada no HC da Unicamp, o projeto produz e envia bonecas para diversas partes do Brasil e do mundo. Entre as entregas estão países na África, como Suazilândia, África do Sul e Marrocos, além de Síria, Índia e Peru, entre outros.

Todas as bonecas e brinquedos, explicam as meninas, são produzidos levando em consideração o destino. “Para a África, fazemos de acordo com tradições locais, tipos de tecido. Também já fizemos versões com bandana para entregar a crianças em tratamento contra o câncer e agora criamos uma com vitiligo”, conta Elisandra.

As voluntárias produzem, em média, 50 bonecas ou brinquedos a cada três reuniões. Além de atender pedidos de doações, que chegam pela rede social do grupo, o Joelhos de Pano vende brinquedos para financiar o projeto.
Ou seja, a cada venda, outro produto é doado e o dinheiro serve para a compra de insumos, explica Elisandra.

“Chegamos a 2 mil bonecas doadas, mas gostaria que fosse mais. Para alguns destinos, o envio é caríssimos. Na última doação para fora do país, gastamos mais de R$ 2 mil com 100 brinquedos”, relata.

Bonitinhas…
Idealizadora do projeto ao lado de Elisandra, Cibele Renata Montagner Siqueira, de 38 anos, relembra que no início do trabalho, há seis anos, a dupla não sabia como fazer. Apenas tinha a vontade.

“Não tínhamos habilidade nenhuma, fomos fazer curso. Ver hoje como está… não imaginava que teria esse alcance, com todas as voluntárias. Até as bonecas mudaram. As primeiras não eram tão bonitinhas como as de hoje”, conta, aos risos.